Sento na calçada. Reparo em um homem que está passando, é um vendedor de flores.
Com um jeans gastado, um par de chinelos e uma camisa - um pouco desbotada pelo tempo - carrega em suas mãos uma cesta toda feita de palha com umas três dúzias de rosas dentro.
É um homem simples, aparentemente com uns cinqüenta e cinco anos e visivelmente da classe baixa.
Anda bem devagar e sempre sorrindo. Oferece suas flores com muita simpatia, fazendo todos ao seu redor sorrir junto a ele.
Querendo o observar mais de perto levanto e vou em sua direção.
Chego até ele e algo me fascina: seus olhos brilham.
Somente de perto dá para reparar o quanto ele precisa vender todas aquelas flores; De perto sua camisa tem alguns furos e suas mãos revelam uma idade muito acima do que sua face transmite.
Peço-lhe duas rosas e estendo a ele o dobro do dinheiro que as mesmas valem, e ele com um sorriso estonteante me entrega as rosas e diz:
- Mas como eres simpática minha jovem. Mas não é necessária tanta gentileza assim... Para ti, vou cobrar apenas uma flor, a outra é por cortesia.
Espantada, peço-lhe que aceite todo o dinheiro e lhe digo para ficar com as rosas também, assim garantirá mais algumas moedas.
Não conseguia compreender como um homem que precisava tanto daquele dinheiro não queria aceita-lo e ainda estava cobrando menos do preço real.
E para um maior espanto, surpreendo-me ao ouvi-lo dizer:
- Não, querida. Não é necessário... Pegue suas rosas e fique com seu dinheiro. O dinheiro não é tudo na vida, o que vale mesmo é o que levamos aqui – e apontou para o seu coração – E nenhum dinheiro no mundo paga os sorrisos e a generosidade que recebo todos os dias de pessoas como você.
Mas não queria aceitar aquelas flores sem pegar. Não podia aceitar. Eu sabia que metade dos bens materiais que tinha em casa, que estava apenas a alguns metros de nós, ele não tinha. Não podia nem falar com certeza que ele tinha um teto para dormir essa noite.
Percebendo minha perplexidade, acrescentou sorrindo:
- Tu és ainda muito pequenina, há um mundo inteiro para conhecer. Quando estiver com a minha idade verás tudo diferente... Seus olhos enxergarão os verdadeiros tesouros da vida, que é de graça para todos.
Então ele riu, me estendeu uma rosa ainda fechada, olhou em meus olhos e em sua face surgiu um sorriso que jamais vira, o sorriso mais cheio de vida que pude ver em toda minha existência, e antes que pudesse lhe dizer algo, ele partiu.
Parada ali com aquele botão nas mãos foi quando percebi a verdadeira profissão daquele vendedor de flores, ele vendia vida.
Porque assim como aquela rosa eu iria nascer e recomeçar a viver verdadeiramente graças a um homem que vi apenas uma vez.
Quisera eu que no mundo existisse apenas cinco vendedores de flores como aquele que conheci. Hoje as pessoas estariam vivendo e não apenas existindo...


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